Sobre as entregas da vida

03 agosto, 2017

Créditos: bluewind_J

Eu te entreguei a minha mão. Receosa, com medo, tentando não focar nas milhares de coisas que passavam pela minha cabeça. Mas eu entreguei. E um pouco mais que ele também. Me aninhei no seu peito e fui inundada por uma tempestade de sensações. Eu só queria entender o que estava acontecendo. Até que percebi que não precisava ser entendido. Precisava ser sentido.

E senti. Logo eu, que teimo em colocar cada dia um tijolinho nessa parede gelada que construí ao redor de mim. Será possível que eu estivesse em paz, mesmo com tudo aquilo acontecendo aqui dentro?

Eu sei que era mais um capricho do que qualquer outra coisa e que ter você era algo que fazia bem para o meu ego, que de tão ferido passou a ser predador. Mas eu não esperava poder relaxar nos seus braços e não ter que pensar em todas as convenções que eu sempre estou acostumada. Eu só precisava ser eu. E isso bastava. Até a história mais sem sentido se tornava divertida, e um comentário despretensioso fazia risadas ecoarem pelo ar.

Nada precisava ser dito para comprovar que tudo aquilo ali era muito certo. Quando algo é bom a gente sabe, não tem muito o que discutir, nem provar por a + b. Tá ali e pronto. E nós estávamos. Nós éramos. O que éramos não saberíamos explicar se nos perguntassem. E nem precisaria de explicação. Bastava aquela sensação no silêncio de tudo para entender.

É, não tinha como escapar mais.

Mas eu escapei.

Escapei porque meu instinto insiste em me fazer correr de qualquer coisa que possa me tirar o chão. Eu estou presa na terra, os dois pés firmes como a ideia dessa liberdade toda que coloquei dentro de mim. Eu até olhei para trás algumas vezes, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Talvez se tivesse segurado minha mão uma última vez. Se tivesse trago a marreta e quebrado em mil pedaços aquela parede... Eu ainda estaria deitada lá, rindo e contando mais uma história que aconteceu essa semana e que você não acreditaria. Mas fui eu quem não acreditei.


2 comentários:

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  1. Eita, que texto lindo.
    Amo a forma que você escreve, sempre envolve a gente...

    Carol | Pink is not Rose

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