Outro Ponto

08 novembro, 2015
Créditos: JohnerCross

Ela estava tranquila. Apesar do ônibus estar lotado, como todos os dias, ela lia concentrada o seu livro. A trama, estava em seu ápice, naquela hora em que o mocinho descobre o vilão e esse está pronto para matá-lo. Não pode esconder o suspiro de espanto que saiu da sua boca, chamando a atenção de meia dúzia de pessoas ali. Mas não ficou envergonhada. Na verdade, nem percebeu. Estava absorvida na história daquelas páginas e o mundo exterior só voltaria a ser real na hora de descer. Foi então que o motorista brecou fortemente fazendo-a acordar do transe. Entre uma dúzia de xingamentos de passageiros, ela se deu conta de que podia ler mais um capítulo até chegar ao seu destino. 

Mas, ao olhar para janela, algo chamou sua atenção. Lá estava ele. Alto, moreno, com seus fones de ouvido e o celular em mãos. Largou o livro no colo e começou a encará-lo. Seu olhar dizia "Ei, me olha, eu tô aqui!", mas ele nada. "Ei, será que não poderíamos tomar um café qualquer dia desses? Poderia te indicar esse livro, ele é fantástico, sabia?". E ele nada. As pessoas lotavam ainda mais aquele ônibus, entrando e se arrumando e ela ali, de olhar fixo. Resolveu dar de ombros e voltou a sua atenção para o livro. Sem antes imaginar mais uma dúzia de situações legais que poderia viver com ele. O ônibus ameaçou partir e ela levantou o olhar mais uma vez. Apenas para perceber que ele estava concentrado mesmo em seu celular. "Então tá. Até outro ponto, quem sabe". E o ônibus partiu.

Ele estava atrasado. Suas mãos e pernas se mexiam freneticamente e seu olhar se voltava toda vez para o fim do horizonte, torcendo para que seu ônibus enfim aparecesse. Mas parece que o universo gosta de brincar. Quanto mais rápido você quer chegar em algum lugar, mais ele irá conspirar para você não conseguir. E o que ele iria conseguir naquele dia, era uma boa bronca do seu chefe. Respirou fundo e prometeu não se estressar mais. Ao invés de olhar o relógio pela vigésima vez, abriu o player e colocou sua playlist preferida. Sacou os fones do bolso e relaxou. Pra que se desesperar? Uma hora ou outra, sua condução apareceria. Vagava pelas músicas para passar o tempo quando observou os passageiros de um ônibus que acabara de encostar no ponto. Uma, dentre os tantos chamou sua atenção. 

Com seus longos cabelos negros e seu óculos de grau azul, estava concentrada em algum livro. Parecia estar gostando bastante. Tentou ver a capa, mas não conseguiu. "Ei, que livro é esse? Estou precisando começar um novo". Iniciou um diálogo na sua mente, mas a menina parecia em outra dimensão. Nesse momento, ele nem lembrava do horário mais. Abaixou a cabeça para trocar de faixa no celular. Passou alguns minutos escolhendo a próxima. Quando levantou novamente, podia jurar que ela estava olhando para ele, mas tinha acabado de desviar o olhar. "Essa música aqui é muito boa, já ouviu?". Mas ela nada. Ainda a encarou por mais instantes, na esperança de que ela o olhasse de novo. E ela nada. Nessa hora o ônibus ameaçou partir e ele então voltou a atenção para o celular, sem antes pensar "Então tá. Até outro ponto, quem sabe". E o ônibus partiu.

5 comentários:

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  1. Meu Deus do céu, Dai. Não sei o que dizer sobre esse texto, sério, talvez que estou apaixonada. Um dos melhores que li nos últimos tempos, fiquei surpresa. Que bom ver você por aqui <3

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    1. Sua lindaaaaaaaaaaa! Eu vou, mas sempre volto (?) HUASUHAHUSHU e fico feliz demais em sempre te ver por aqui também, de verdade <3

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  2. Deixa eu te contar uma coisa Dai, minha amiga Tássia já recebeu uma carta de um menino no onibus, porque ele achou ela muito linda. hahaha Eu li esse texto e me lembrei dela. Só que ele estava no ônibus já e quando ela entrou ele começou a escrever e entregou para ela quando ele saiu do ônibus. hehehehehe legal né?

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    1. QUE LINDINHOOOOOOOOOOS! Tenho uma amiga que o cara puxou conversa com ela também, do nada, no ônibus. Fico pensando, se eles não tivessem tomado a iniciativa, teriam perdido boas histórias

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  3. Que lindinho esse texto! É como se o destino quisesse uni-los de alguma forma, sem que eles soubessem disso. Uma graça!

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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