O sonho

12 julho, 2015
Créditos: mcconnmama

- Vem, segura na minha mão pra não sentir medo.

Ela assentiu e segurou na mão dele. Os dois olharam pra cima pra imensidão branca e a pequena luz que iluminava o quarto do hospital. Era a primeira vez que se viam de fato, mas o afeto e a solidariedade de criança os fizeram sentir como se já se conhecessem desde que nasceram. Ela mordeu o lábio sem esconder a ansiedade.

- Onde está minha mãe? Quero minha mãe! - Disse, com a voz falha e chorosa.

- Calma - ele disse, em um tom sereno -, ela está com o doutor. Meu pai disse que eles precisavam conversar sobre os últimos detalhes. Que era como minha festa de aniversário, pra dar tudo certo, não pode esquecer de nada. Talvez nos dêem balões no final. Eu gosto de balões.

Agora olhavam pra fora e observavam uma multidão que passava na pressa, feito flash pela porta deles. Parentes, médicos, enfermeiros. Todos ali cumpriam seu papel roboticamente.

- Minha mãe disse que estou muito dodói, mas que isso aqui vai me curar. Você é um super herói?

- Não que eu saiba. Um dia tentei atravessar a parede. Não consegui. Doeu e minha mãe brigou comigo porque apareceu um negócio na minha testa. Talvez meu pai saiba e por isso disse ao médico que te salvaria.

- Seu pai está te obrigando a me ajudar? - Perguntou, assustada.

- Não! Eu quero que fique bem igual à mamãe. Ela estava dodói igual a você. E aí uma pessoa legal fez o mesmo que fiz e agora ela tá lá em casa. Só fica deitada ainda, mas o papai disse que logo ela estará bem de novo e vai poder me levar pra escola de novo.

- E como vocês souberam de mim?

- Papai e eu estavamos aqui no hospital felizes porque ela estava saindo. Ela ficou um tempão aqui, sabe? E ele disse que se pudesse ajudar outras pessoas assim, era só chamá-lo. Aí tinha você, só que só eu podia ajudá-la. Perguntei o que eu tinha que fazer para que você ficasse bem igual a mamãe. Ele disse que meu sangue faria você melhorar. Perguntei se ele era um vampiro e ele riu. Rir é um bom sinal, né? Enfim, ele explicou tudo pro papai que entende mais do que porque é adulto e aqui estou eu.

- Obrigada por me salvar. Mamãe estava com medo que eu morresse. E eu não quero abandoná-la.

- Pra isso que servem os amigos.

- Somos amigos então? - Os olhos dela brilharam.

- Claro, você até está convidada pra minha festa!

- Eu estarei lá, porque não vou estar mais dodói.

Os médicos chegaram e os levaram para a sala de cirurgia. Naquele quarto branco restaram a esperança que é viver e o brilho do amor e da solidariedade. E hoje, 20 anos depois, brindo ao casamento de duas pessoas que o destino uniu para o bem e que o amor juntou para a eternidade. Ela está aqui por causa dele, e o seu sangue a salvou.

10 comentários:

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  1. Que texto lindo! Gosto de visitar seu blog, você escreve uns textos bem legais, bem profundos, parabéns!

    www.faseseestacoes.com.br

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    1. Own, muito obrigada, Sabrina! Adoro seus textos também ♥

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  2. Fiquei arrepiada com esse texto! E agora fiquei curiosa: quem é o casal dessa história? <3

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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  3. Também fiquei curiosa, Dai! O texto tá incrível, conseguiu passar a pureza e inocência sem fazê-los parecerem bobinhos. E esse "e o seu sangue a salvou" dá um segundo sentido <3 hahahah um beijo

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    1. Verdade, tem todo um segundo sentido também hahaha *-*

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  4. Adorei o texto hehe conseguindo deixar a todos com uma pontinha de curiosidade :)
    Parabéns pelo lindo texto!!
    Ótima segunda-feira pra ti :*
    Beijokas da Camila e Carol
    http://www.vamospapear.com/

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    1. hahahahahah todo mundo querendo saber quem eles são

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  5. Que texto lindo, muito bom. bjs
    http://blogestilorefinado.blogspot.com

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