A mulher que morreu só

23 julho, 2015
Créditos: fancycrave1
Quando jovem, ouviu exclamarem o quanto era independente. Suas amigas a invejavam por desprender-se do amor com tanta facilidade. Mal sabiam elas que na verdade o amor a consumia por dentro de tal forma que não conseguia arrancá-lo de si, muito menos renová-lo para que fosse algo benéfico de novo. Nessa constante luta interna, ela fechou-se pra si mesma. E suas amigas? Anos mais tarde diziam como era boba e o quanto estavam felizes em seus relacionamentos.

Conheceu muitos homens. Se relacionou com poucos. Fisicamente, eu digo. Porque com eles tinha as mais sinceras e francas conversas. Eles a consideravam culta e diferente e bradavam que o mundo precisava de mais mulheres assim. No fundo, eles achavam que não. Só se excitavam com a novidade. Sabe porque sei disso? Porque depois, um por um, casaram-se com mulheres quietas, tímidas. Diria que até submissas. E exclamavam aos quatro ventos como tinham boas esposas.

Nunca recebeu flores. Não porque não gostava de tal ato. Muito pelo contrário. Ela adorava o cheiro que elas exalavam quando se aproximavam de seu nariz. Todos sabiam de sua paixão pelo o que ela dizia ser "poesia em forma de cores e aromas". Esperou pelo dia em que, feliz se entregaria novamente e com seus olhos brilhantes, agradeceria tão singelo ato. Mesmo assim, nunca as recebeu. E tal dia nunca chegou. Para sanar tal fato, ela enchia seu próprio lar com as mais diversas flores, e cuidava como se fosse suas próprias filhas. E elas eram isso mesmo. Filhas de vida curta, que enchiam sua vida e escutavam suas mil histórias. Algumas pessoas encontram companhia nos animais. Ela encontrou e amou as plantas.

Mas não a vejam como uma mulher fraca e solitária. Peço que a enxerguem como a mais forte dos seres humanos. Ela aceitou pra si seu destino e viveu feliz como tal.

Conheceu mil lugares. Viveu tantos contos. Cruzou vários caminhos e deixou um rastro de saudade e luz por onde passou. No silêncio do apartamento do sétimo andar, ela descansava e refletia como poucos. Da sua velha cadeira, observava as pessoas passarem freneticamente. Ouvia o barulho da chuva que enchia-lhe a alma. Aos poucos os amigos foram desaparecendo. Foram tomando seus rumos até que se viu completamente só.

Quando chegou a hora, partiu. Certa que cumpriu sua missão no mundo. Certa de que apesar de tudo, foi feliz.

3 comentários:

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  1. Acho que temos que aproveitar cada experiência que temos em nossa vida, e aprendermos que cada pessoa que passar por nós e cada momento que tivermos vai ser algo único e provisório. Nascemos e morremos só, mas temos muito o que viver, cada um com suas particularidades e modos singulares de ser. Todos nós vamos partir um dia, e é importante que as pessoas saibam o quanto foram importantes para nós, e quando a gente for embora desse mundo, elas vão sentir nossa falta por alguns momentos, mas vão acabar seguindo em frente, porque a vida é assim. Aprender a lidar com isso é algo extremamente importante e que faz diferença.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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