Uma conversa ao entardecer

08 abril, 2015
Créditos: Haroldo Kennedy
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Sento-me num banco qualquer, mas tenho certeza que a praça era aquela. Alheio à rotina do resto do mundo, fico ali a aguardando enquanto observo aquele belo entardecer de verão. Nesse tempo de espera, aproveito para relembrar todas as vezes em que ela me ajudou, mesmo com suas broncas e que talvez essa seja a nossa última conversa.

Lá vem ela ao longe. Me parece meio diferente, mas acho que já estou acostumado a essas mudanças. Assim que se senta ao meu lado, me entrega um pacote. Era meu sanduíche predileto.

- Obrigado, realmente não precisava se incomodar.

- Acho que depois de abusar da sua boa vontade e de beber seu 18 anos, deveria te fazer um mimo.

- Obrigado novamente, agora mate minha curiosidade. Por que aqui, por que hoje?

- Nada em especial com a data, mas aqui porque eu sei que você iria adorar esse entardecer entre essas árvores. Fiquei feliz em ver sua evolução depois daquela nossa conversa, mal precisei te dar uns esporros depois dela. Parece que finalmente tomou jeito na vida.

- Sim, tomei. Se não fossem suas insistências acredito que não estaríamos aqui hoje...bem, na verdade estaríamos mas não dessa maneira, acho...

- Hahahahaha quase isso! E como vai sua esposa?

- Como se não soubesse a resposta... a visito todas as semanas. É meio estranho dizer sobre isso com você, afinal foi quem mais me amparou quando ela se foi. Ainda sonho com ela, sonho com aquele telefonema que praticamente começou tudo, ou deveria dizer recomeçou?

- Apenas te abri a porta para uma nova oportunidade, sabia que você seria capaz de corresponder às minhas expectativas. Me atrevo a dizer que você excedeu todas elas, te parabenizo por isso.

- Obrigado de novo.

- Mas agora vamos ao que interessa. Vê todas essas pessoas?

- Sim, o que tem elas?

- Queria te mostrar uma última verdade. Todas elas sou eu e todas elas são você.

- O quê quer dizer com isso?

- Simples, se lembra daquele texto da Bíblia que diz sobre onipotente e onipresente?

- Você não quer dizer que...

- Sim, isso mesmo que você está pensando.

- Então você fala somente comigo?

- De forma alguma, falo com todos os que querem me ouvir, falo de diversas maneiras. Com você, esse foi um dos meios que escolhi para que entendesse o significado da sua vida.

- Engraçado, sempre te vi de outra forma.

- Eu sei, todos me imaginam como um velho barbudo, mas posso ser o que você quiser na verdade.

- Ta explicado porque você mudava seu visual toda vez que nos encontrávamos, mas dessa vez é praticamente outra pessoa.

- Sim, porque essa é uma ocasião especial. Você veio sentindo isso a algum tempo.

- Achei que eram apenas sonhos... De qualquer forma é estranho, não sinto medo.

- E não é para sentir, afinal no fim não existe céu ou inferno, não existe julgamento final. Não existe mais medo ou pecado, não existe você, na verdade nunca houve você. Apenas nós.

- Tudo faz sentido, todo esse tempo então... Era eu conversando comigo mesmo...

- Sim, você falava consigo mesmo, mas ao mesmo tempo comigo. Com a minha centelha em você. Afinal estou presente em todas as coisas.

- Parece que no fundo sempre soube.

- Você sempre teve uma intuição forte. Acredito que já é hora de irmos.

- Tudo bem, já fiz tudo que precisava.

E assim, de mãos dadas, partimos em direção ao entardecer. Para um outro lugar, onde poderia enxergar o mundo e as estrelas sob uma nova paleta de cores.


3 comentários:

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  1. nao entendi...
    essa pessoa com quem ele estava falando é real ou imaginaria? ou metafórica?
    fiquei tipo meio que boiando...

    www.meumuraldeideias.com

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    1. Rsrs digamos que é uma pessoa real e imaginária Mercelle. Digamos que é uma pessoa que muitos acreditam ser o criador... Mas a idéia é essa mesmo, deixar o leitor com uma pulga atrás da orelha (se você leu o texto anterior, esse fica fácil de descobrir com quem o personagem fala).

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  2. Adorei o texto anterior e achei incrível que ele teve continuação, ainda mais com esse desfecho, tão bonito e singelo. Parabéns!

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