Uma crônica sobre o apego

04 março, 2015
Créditos: Viktor Hanacek

Leonardo sempre foi uma pessoa que nunca soube muito bem como lidar com o apego, afinal isso permeava a vida dele. Por ser filho único, não gostava de dividir seus pais com ninguém na sua infância e até mesmo na escola tinha problemas, queria exclusividade dos professores.

Com o passar dos anos (e alguns tapas da vida), Leonardo começou a entender o conceito de não se apegar, de deixar ir e que nada era seu de verdade. Mas ainda existia algo que o massacrava por dentro: seu apego em relacionamentos. Por mais que tentasse, ele criava expectativas demais, se doava demais, perdia sua essência e por fim, acabava perdendo também sua parceira. Ele sempre foi uma pessoa muito intensa em seus sentimentos e acreditava ser aquilo o maior de seus problemas: Aquilo que o fazia se prender tanto à alguém e no momento da separação, sofrer como se lhe arrancassem um membro do corpo sem nenhum tipo de anestesia.

Cansado de tanto sofrer, Leonardo tentou buscar todas as respostas possíveis e foi na solidão que encontrou seu caminho. Na solidão ele encontrou o silêncio e com ele passou a caminhar, a estudar e refletir sobre sua vida. Passou a viver para ele e não em função de outros. Claro que não deixou de se relacionar com ninguém, afinal a vida havia se tornado seu laboratório, onde cada experiência gerava uma nova transformação.

Mas algo inesperado aconteceu. Ele conheceu alguém que conseguiu mexer profundamente com ele e tirá-lo desse estado solitário e meditativo. Era seu maior teste. Ela se chamava Paloma e era seu completo oposto. Enquanto ele era sério, fechado e observador, ela era a pessoa mais aberta e franca que poderia existir, falava o que viesse na cabeça, tinha as idéias mais loucas e gostava das coisas mais absurdas.

Uma improvável amizade se iniciou e com ela, Leonardo pôde perceber que existiam outros mundos a serem explorados, uma nova vida se iniciava para ele. Meio sem querer algo foi mudando entre os dois, a cada novo encontro corações se aceleravam, pêlos se eriçavam apenas ao toque do olhar e mal se dando conta, estavam apaixonados.

Aquele monstro que ele achava ter domado, voltou à tona quando percebeu que sentia falta dela todos os dias e a vida livre e ocupada dela, não refletia o mesmo. O medo de perder uma pessoa que era tão maravilhosa à ele, foi alimentando seu apego ao ponto de sufocar aquele fogo da paixão que existia entre eles, apagando-o de vez. Leonardo não sabia, mas era o fim... Mais um fim doloroso para um ciclo. Isso só ficou claro quando Paloma lhe disse: “Não há nenhuma forma de ficarmos juntos, somos muito diferentes e as vezes me sinto muito sufocada por você. Somos dois opostos que nunca darão certo”.

Aquilo destruiu Leonardo, para ele todos aqueles mundos que havia descoberto com ela, foram sido sugados por um enorme buraco negro. Sua vida havia se tornado um vazio. Ela sumiu do mapa e ele resolveu fazer o mesmo. Pegou sua mochila, suas economias e rumou para as montanhas do Tibete. Passou anos por lá e descobriu na meditação a libertação dos seus problemas. Aprendeu que seu apego era o medo. Medo de perder algo que nunca foi seu e jamais seria. Aprendeu que tudo era uma questão de escolhas e que a única coisa que possuía era seu amor próprio. Que deveria ser maior que tudo mas sem sobrepujar o amor de ninguém.

Enfim, ele resolveu voltar ao Brasil e no meio de uma dessas escalas na Europa, percebeu que Paloma estava no mesmo avião. Não sabia se retomava contato, mas a curiosidade de saber como ela estava foi maior. Assim descobriu que ela viajou o mundo, aprendeu diversos idiomas e agora voltava pra casa. Descobriu também que ainda existia uma ligação entre eles, combinou de tomar um café com ela algum dia desses, quando estivessem de volta à São Paulo.

Chegado o dia do reencontro, ambos foram pontuais e pareciam terem se vestido para o dia mais importante da vida deles. Entre goles de café e pães de queijo, a conversa que deveria durar pouco, levou horas. Que se transformaram em novos encontros. E assim, ao acaso do destino, Leonardo e Paloma foram percebendo aos poucos, que na realidade não eram opostos, mas sim complementares que no passado viviam em tempos diferentes e agora estavam na mesma sintonia.


13 comentários:

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  1. Adorei o textinho ^^ Se apegar as vezes é um grande erro...

    lugarrnenhum.blogspot.com.br

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    1. Verdade... Temos que controlar o apego pra não nos machucarmos

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  2. eu gostei
    sempre falo que os opostos se distraem e os dispostos se atraem
    é isso aí nao existe isso de diferença
    se há amor isso é o que vai unir esses dois polos de personalidade

    www.meumuraldeideias.com

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    1. Verdade, Marcelle. Quando o sentimento é verdadeiro, derruba barreiras.

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  3. Awesome post! Nice one :)

    http://whalespa.net

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  4. Amazing, amei o texto, é bem assim a vida. E estou in love por seu blog, me apaixonei tanto que segui bjkas! http://garotafucada.blogspot.com.br/

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  5. A princípio, pensei "quem quer exclusividade dos professores? Meu Deus, esse Leonardo não bate bem", lógico que não consegui não gargalhar em seguida. Amei demais o texto, muito intenso, tanto quanto Leonardo rs. Me identifiquei um pouco com o jeito dele, isso me chocou um pouco, ao ler sentia como se alguém estivesse tentando descrever alguém que conheço bem, eu. uheuhehuhue
    Um beijinho! ♥
    http://cirandadeflores.blogspot.com.br/

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    1. HAHAHAHAHAHAH Leonardo queria atenção exclusiva de todos! E essa identificação é uma coisa louca né? Sempre me vejo um pouco (ou muito) nos textos de outras pessoas

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  6. Me identifiquei bastante com esse texto, porque eu também sou assim, me apego demais às pessoas que gosto e muitas vezes tenho dificuldade em deixá-las partir. Atualmente lido bem melhor com isso, pois sei que essa vontade de exclusive está realmente relacionada com medo e insegurança, e devemos deixar as pessoas livres, e acredito que estar na vida de outra pessoa deve ser uma escolha e não uma obrigação, por isso me identifiquei principalmente com esse trecho: "Aprendeu que seu apego era o medo. Medo de perder algo que nunca foi seu e jamais seria. Aprendeu que tudo era uma questão de escolhas e que a única coisa que possuía era seu amor próprio. Que deveria ser maior que tudo mas sem sobrepujar o amor de ninguém."

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    1. A gente até tava conversando sobre isso esses dias, né? HAHAH Também me apego demais às pessoas :(

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  7. Inspiring and full life photography :-)

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