Secretária Eletrônica

01 março, 2015
Créditos: imgkid.com


São quase 2 da manhã e eu ainda não consegui dormir. A insônia, velha amiga das madrugadas, resolveu me visitar. É que eu tive um dia difícil, mas creio que você deve ter deduzido isso já. Fui procurar café na garrafa, mas ele acabou. E você sabe que viro o bicho sem café. Tá pra nascer gente mais viciada nessa coisa preta que nós dois. Até tentei também terminar aquele livro que eu sei que já leu, mas minha mente está dispersa demais pra isso. Fui escrever... Mas tudo o que minhas frases resumiam é que queria ouvir o som da sua voz. Daí resolvi ligar. Sei bem que essa hora você já está dormindo. E não está sonhando. Talvez porque seu mundo é concreto e real demais pra te permitir deitar no travesseiro e viajar pela fantasia. Já eu, ando sonhando até acordada. E ando acordando assustada com sua visita nos meus sonhos.

Sei que você vai rir agora, mas preciso confessar uma coisa. E eu agradeço que mais ninguém possa ouvir isso, porque sei que mesmo sem querer, vai abrir um sorriso quando escutar. Ando olhando pra sua foto todos os dias. É que seu rosto já não me é tão fresco na memória e eu tenho medo de que algum traço se perca na infinidade de coisas sem importância que guardo na cabeça. Sua barba falha e seu sorriso de lado são mais essenciais que qualquer fórmula química que eu aprendi na escola. O seu olhar me ensina mais que mil aulas de história. E nenhuma aula de geografia me ensinou que o lugar certo pra se estar era na paz do teu abraço. Não sei se viu também, mas nossa foto continua no mesmo lugar. Acho que no fundo quis mantê-la ali pra congelar o tempo, ou pra voltar toda vez que batesse os olhos em nós.

Se não me conhecesse bem, ia pensar que estou bêbada e que isso é uma mensagem clichê que eu me envergonharei pela manhã. Mas ei, ainda sou eu. Talvez eu esteja embriagada, sim. Mas de saudade. E eu não tenho porque me envergonhar de sentir. Eu sinto, e pode ser uma droga às vezes - ou muitas vezes, mas tá aqui dentro. E isso combinado com minha impulsividade e minha falta de sono me faz te ligar às 2 da manhã pra falar. Simplesmente... Falar. Porque o que está entalado mesmo na garganta você já decorou. E o silêncio dessa Caixa Postal equivale ao seu silêncio. Equivale à ausência. De respostas, de palavras, de você.

Não estou pensando muito em como vai reagir quando essa mensagem acabar. Você pode deletá-la após o final e seguir sua rotina corrida que nunca começa com um café da manhã. Você pode repetir todas as coisas que eu já consegui decorar e que não são muito fáceis de ouvir. Ou você pode nem ouvir quando sacar de quem se trata. De qualquer forma tudo isso vai me render mais umas boas noites pensando. Espero que tenha café dessa vez. Acho que vou desligar. Já cheguei ao ponto de me sentir uma boba por estar conversando tão animada com a máquina e só receber frieza como recompensa.

Nunca fui boa com despedidas, e a nossa tornou tudo mais difícil. Eu nunca sei como te dizer tchau. Ainda mais sabendo cada vez ele pode se tornar um adeus. Falar "até logo" é tão irônico pra gente que sinto um frio na espinha. Não vou dizer "eu te amo" porque isso pra mim é complexo demais, mas todas as minhas teorias cairiam por terra quando não sentisse uma retribuição, independente de qual fosse. Então acho que no fim das contas só quero te desejar boa noite. E um bom dia. Uma boa tarde. Cada coisa boa que a vida possa te oferecer. Não é porque não estou inclusa nelas, que irei te desejar o mal. O que desejo esteve escondido nessa mensagem desde a primeira frase, até o bipe do final.

9 comentários:

Comente pelo Facebook

  1. Estou encantada e apaixonada pelo seu texto. Aliás, aff, eu me encontro tanto na sua escrita, ela é tão direta e tão bem feita. O texto é maravilhoso e, infelizmente, acho que todo mundo sabe como é se sentir assim.
    Um beijo
    Yasmim Gil
    http://cirandadeflores.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho, que é uma situação que, vira e mexe, a gente se encontra, né? :(

      Excluir
  2. Que lindo Dai!
    Me identifiquei muito com o texto: amo café, tenho insonia e escrevo de madrugada :D

    http://www.eucurtoliteratura.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hhaahahahah pior que meus melhores textos sempre saem de madrugada. Eu ainda acho que é o melhor horário pra se escrever \o/

      Excluir
  3. Dai, que maravilhoso! Xô te contar um segredo.
    Ontem (domingo) faria dois anos de namoro. Um namoro perfeito, leve, daqueles de dar inveja. Mas, do nada, ele se tornou alguém frio, e uma semana depois de fazermos um ano, terminou comigo (por WhatsApp). E eu aqui, no poço, há um ano. Enquanto ele, sempre rodeado de meninas, namorou de novo, terminou. Somos muito próximos porque frequentamos os mesmos lugares e grupos do WhatsApp, mas quer saber? Isso tudo é um saco. Faríamos dois anos e ele me deu uma carona para casa, e enquanto eu esperava para ver se ele diria alguma coisa, ele não disse nada. Nenhuma palavra sobre nós. E depois eu soube que ele estava com uma menina em um lugar aí, enquanto eu chorava em casa.
    Essa coisa toda de término é uma droga, e sempre sinto como se fosse eu que estivesse escrevendo teu blog (mas, como somos próximos, não posto sobre isso para que ele não saiba).
    Parabéns por tudo, menina, Te admiro pra caramba!

    48janeiros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Primeiro de tudo: VENHA CÁ, DEIXA EU TE DAR UM ABRAÇO! _o_
      Infelizmente, sempre uma pessoa sai muito magoada e a outra consegue seguir numa boa. E no seu caso ainda, em que a convivência continua, tudo fica mais difícil. Mas, olha só: Um dia a dor passa. E você vai voltar a sorrir, com ou sem a presença dele. Aí teu coração ficará livre e voará até alguém que te faça feliz novamente. Mas enquanto isso não acontece, se ame, ame a família, ame a Deus e guarde os momentos bons com ele. Os ruins a gente joga fora que é pra mágoa não voltar. Fique bem, viu? Também te admiro pra caramba! ♥

      Excluir
  4. Realmente seu texto transpassa uma naturalidade constrangedora de tão sincero que é. Um tipo de história que devemos ouvir com carinho para não assustar o locutor.

    Parabéns por passar essa emoção! :)

    PS.: Sei muito bem o que é um amor não correspondido - há 5 anos! :'(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo seu comentário, Ayron! É bom sentir que as pessoas conseguem captar a sinceridade com que escrevo.

      E ah, os amores não correspondidos... :(
      Pelo menos, eles nos servem de inspiração

      Excluir
  5. É muito difícil lidar com despedidas, porque mesmo que o término de um relacionamento seja necessário em muitos casos, é comum as pessoas saírem machucadas disso, é comum não conseguirmos dizer tudo o que gostaríamos, parece que o sentimento fica entalado dentro da nossa garganta e a gente não consegue encontrar uma forma de fazê-lo sair. Mas é algo que todos nós passamos, dói, mas nos faz conseguir seguir em frente. E não é porque alguém nos fez mal, partiu nosso coração que a gente deva desejar o mal para essa pessoa também, porque guardar rancor faz mal apenas para nós, o melhor é realmente tentar seguir em frente, em paz.

    ResponderExcluir